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14 de Dezembro de 2017

Paráfrase: advogar se aprende advogando

Natália Oliveira, Advogado
Publicado por Natália Oliveira
ano passado

Parfrase advogar se aprende advogando

Carlos Drummond de Andrade disse que “amar se aprende amando”. Resolvi adaptar a frase para a vida profissional: advogar se aprende advogando.

Ingressei na faculdade muito cedo e também muito cedo a deixei. Fui aprovada no Exame de Ordem no décimo período da graduação e hoje, depois de pouco mais de um ano de advocacia, as pessoas ainda manifestam surpresa quando digo que sou advogada.

A minha aparência jovial não é exatamente o tom dessa conversa... Seria presunção demais, não? O fato é que muitas e muitas vezes, pessoal ou virtualmente, vejo colegas (ou futuros colegas) de profissão extremamente receosos de exercer a advocacia de forma efetiva e encará-la como ofício para a vida.

Advogar não é fácil, ao contrário do que se diz por aí; sem comprometimento, eu diria impossível. Mas, a única forma de se aprender a advogar – repito – é advogando. Arriscando, tomando fôlego, foi-láefez. Cursos preparatórios e livros podem nos ensinar as melhores e mais atuais teorias e estratégias, desde o trato com o cliente até as razões recursais. Se nos faltar coragem, meu caro (a), de nada adianta; estaremos teoricamente prontos e praticamente ancorados (pelo medo, por óbvio) no mesmo lugar.

Quando vi pela primeira vez minha carteira da OAB, meu coração se encheu de felicidade. Quando adentrei uma sala de audiência na condição de advogada pela primeira vez, meu coração se encheu de adrenalina. Tratava-se de uma ação de alimentos e não havia nem de longe uma relação amistosa entre as partes (recém separadas). A conciliação foi exitosa e o acordo satisfatório, mas como nem tudo são flores, ao sair da sala de audiência minha cliente foi gentilmente agarrada pelo pescoço pela atual companheira de seu ex-esposo, que o aguardava no corredor. Até hoje não consigo identificar em que fração de segundo isso aconteceu porque foi tudo muito rápido para a minha natureza pacífica. O que lembro claramente (como não lembrar?) é de alguns policiais se aproximando e (também) tentando entender como aquilo tudo começou.

Definitivamente não foi um bom começo, mas se eu tivesse dado a ele a capacidade de me frustrar, é provável que hoje estivesse em casa (ainda) estudando para algum concurso. Não tenho nada contra concurseiros, pelo contrário; admiro quem persegue seus objetivos. Porém, ser aprovada em um concurso público nunca foi exatamente o meu objetivo. Advogar, desde os tempos da graduação, era prioridade e assim caminho.

Proponho a você colega e leitor que porventura se encontre frustrado ou desencorajado profissionalmente um exercício: 1) coloque em um papel tudo aquilo que de alguma forma os impede de encarar a advocacia como profissão. Falta de celeridade nos trâmites processuais, medo de errar, medo de falar em público, baixo retorno financeiro, altos investimentos, ausência de incentivo etc. 2) Agora, risque neste papel tudo aquilo que não morde e não mata. 3) Sobrou alguma coisa? Em caso afirmativo, recomendo procurar um psicólogo. 4) Rasgue o papel, jogue no lixo e de agora em diante só liste suas possibilidades.

Ninguém começa pelo topo (ninguém!), estrutural e intelectualmente falando. Há sempre algo a aprimorar ou aprender. Emendar a inicial, ligar para o colega pra tirar uma dúvida, atrasar alguns boletos, comprar uma cadeira pouco ergonômica, ler uma decisão desfavorável, sentir vontade de sentar no chão e chorar... Faz parte da caminhada. Acostume-se.

O limite entre advogar e não fazê-lo é um só: a escolha. Daqui a alguns anos, você pode se queixar por nunca ter advogado ou rir de tudo que enfrentou com um alvará judicial nas mãos (e outros pendentes de expedição).

Empenhe-se, acredite e o retorno – em seu tempo – virá. Mas, se você não pretende arriscar, lamento: nunca saberá o que é ser um de nós. Advogar se aprende advogando.

22 Comentários

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Artigo oportuno, inteligente e de uma sinceridade impar...Parabéns colega espero que outros colegas tomem você como exemplo. continuar lendo

Obrigada, Mario! Fico muito feliz por suas palavras. Seja bem-vindo aqui sempre. continuar lendo

Meus parabéns, Natália! Você estava iluminada quando escreveu esse texto.
Acredito que toda profissão possui as suas dificuldades.
A luta, para todos, é diária.

Felicidades na profissão!

Grade abraço. continuar lendo

Muito obrigada, Lucas! Pois é... Toda profissão tem suas peculiaridades. Importa que saibamos trilhar o melhor caminho, nos bons e maus momentos.
Abraço! continuar lendo

ótimo texto colega, de fato advogar é uma luta diária, árdua, por diversas vezes passamos por cada coisa, um teste para paciência, como esposado anteriormente é advogando que se apreende, ainda me lembro das primeiras audiências, dos vacilos, nesses 05 anos de atuação posso dizer uma coisa, tem dias que paro e penso como é bom ajudar as pessoas, saem tão agradecidas, e me pergunto ainda sou remunerado por isto? como diz o ditado "faça o que gosta e não trabalharás um dia de tua vida". continuar lendo

Obrigada, Marcos! De fato, trabalhar com o que se gosta é maravilhoso. continuar lendo

Excelente texto, Natália. Grande incentivo. continuar lendo

Obrigada, Firmina! continuar lendo